Aquele barulhinho de mastigar biscoito crem-cracker nunca a irritara antes:
- E aí, tá gostoso ?
- Hum-hum... crack, crack, crack, crack...
Ela desiste de puxar assunto. Desiste geral. Sabe que depois Ele vai dar uma espiada no caderno de variedades, vestir o resto das roupas e despedir-se com o habitual "Te ligo, gatinha !"
Um café-da-manhã igual a tantos outros, depois de uma noite idem. Sentada ali, apreciando a felicidade inocente (e barulhenta) do mancebo Ela só consegue pensar... será que Ele pensa? Não se lembra de nada que Ele tenha dito ultimamente, além do básico para combinar de encontrá-la. Nenhuma frase mais complexa, que expresse opinião ou ao menos demostre raciocínio.
Mas Ele é uma gracinha, tem um olhar cheio de ternura, a trata bem. Rola até uma certa química. Poderia haver mais entusiasmo, é verdade. Um relacionamento com tudo para dar certo : agradável, descomplicado e sem paixão! Por quê Ela tem que se preocupar com detalhes desse tipo? Outro dia eles sairam com uns amigos e até que Ele falou bastante. Perguntou se os outros ainda não tinham visto um filme muito comentado, disse que tinha uma matéria interessante no jornal, emendou algumas histórias sobre uma viagem que a turma fez... nada que começasse com "eu acho", "eu percebi" ou mesmo um "será que?".

Crack, crack, crack... Tantas coisas já se passarem pela cabeça dela e Ele ainda não acabou com o maldito biscoito! Afinal, onde Ela estava com a cabeça naquela festa em que passou seu telefone para ele ! - Peraí ! Naquela noite Ele estava todo falante e charmoso. Não foi só "xaveco", não. Ele puxou conversa e foi bastante interessante, ou Ela não daria nem número errado...
O cara zerou o QI no primeiro papo!!! E há pouco que se fazer nesses casos : catalogar o tipo e dividir a experiência com as amigas, fugir dele se quiser mais do que sexo... ou desencanar e experimentar aquela nova geléia light : - Dá um biscoitinho, gato...
cena de breakfast at tiffany's (blake edwards). e outra boa opção.

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